Nessa quinta-feira, dia 28/02/2008, aconteceu minha colação de grau. Nela fui o orador escolhido por minha turma para representá-la. Como algumas pessoas gostaram do discurso, publico seu código-fonte aqui para referência futura.

Uma boa noite a todos,

inicialmente, gostaria de agradecer a presença da professora doutora Maristela
Gomes da Silva e dos demais membros da mesa. Agradeço também a presença de
vocês, nossos convidados.

Ser o único a representar toda a turma como orador é uma grande
responsabilidade e, dada a grandiosidade da mesma, uma honra. A razão por me
sentir honrado é por que antes de ser apenas mais uma turma de engenharia de
computação formada pela UFES, essa turma é, por favor, perdoem o clichê, uma
turma de amigos. Cada um com sua particularidade, mas ainda assim amigos.
Aliás, falando em particularidade, essa também é uma turma ímpar, pois provou
ser capaz de discutir política, futebol, religião e tantos outros assuntos com
discussões acaloradas, é verdade mas nunca sem perder a amizade.

Como era de se esperar, essa turma passou por diversos obstáculos e enfrentou
inúmeros trabalhos dignos de canções épicas sobre a persistência diante de
situações adversas. Relembrando um pouco da história no começo do curso:

Enfrentamos o terror psicológico logo que entramos na universidade. Em uma das
primeiras aulas, tivemos o prazer de escutar o possivelmente frustrado
professor de Física 1 nos dizer que o nosso coeficiente de rendimento era nossa
vida e que um coeficiente baixo implicaria em passarmos o resto de nossos dias
como vendedores de cachorro-quente na praia. Não que isso seja uma coisa
completamente ruim, mas imagino que a determinação do destino de um indivíduo
baseada em um único número seja algo exagerado.

Como se somente nossa coragem não pudesse ser posta a prova por esse
terrorismo, ainda tivemos nossa capacidade cognitiva posta à prova também ao
tentar compreender as aulas de Cálculo 1, a bendita definição de limite e os
esboços de gráficos de alguns colegas.

À medida que o tempo passava como calouros, notávamos que nossa arrogância como
senhores das ciências exatas era infundada, dado que nossa auto-estima por
muitas vezes era reduzida a algo próximo a nada, graças à aparente inexistência
de relação entre quantidade de horas de estudo e notas de prova.

Aliás, nossa ilusão durou pouquíssimo tempo. Logo que o conteúdo de Física se
tornou mais denso e tivemos contato com a Física experimental, aprendemos que
não existe certeza nesse mundo. Apenas que existe algo em torno de uma certeza.

Todos os períodos de nosso curso foram marcados por experiências novas e, como
sempre, por muitas provas e trabalhos computacionais e eletrônicos. Por
aproximadamente 5, 6 ou muitos anos, essa foi nossa rotina. Enquanto vivíamos
a UFES, enfrentamos nossa primeira grande crise de identidade com o curso ao
estudar eletrônica básica 1 e o controle automático 1. É uma alegria saber que
aquele tempo não volta mais.

Infelizmente, durante essa época de questionamento nosso grupo de amigos sofreu
algumas baixas e alguns foram forçados a permanecer no curso por mais algum
tempo, outros simplesmente trocaram de curso. Mas ainda assim, continuaram
nossos amigos e, sempre que possível, nos encontramos em algum churrasco.
Outros decidiram seguir o curso sabendo que não atuariam como engenheiros
especificamente, mas como administradores com profundo conhecimento de
 engenharia.

Vencido esse período de trevas, nossos projetos se tornaram mais profissionais
e passamos a desenvolver amplificadores de som, controladores de braço de
solda, controladores de elevadores. Também implementamos nossos próprios
microcontroladores e nossos fornos de solda, oxímetros e outros projetos.

Nesse ponto, já não éramos mais vistos como meros estudantes de engenharia, mas
tratados como engenheiros e, a partir daí, o esforço para um projeto já não
mais importava, o que importava era o projeto pronto e funcionando, o que
acabou levando alguns a perder suas férias em noites viradas dentro do
laboratório de microprocessadores realizando testes em seus projetos.

Naquela época nos tornamos mais cansados e estressados, mas ficamos
extremamente felizes quando nossos projetos funcionavam e nada explodia. Ou em
um raro caso de um de nossos amigos, o projeto explodia e nada funcionava.

Enfim, agora cá estamos, prontos para receber nosso diploma. Alguns de nós irão
trabalhar em software houses, outros em empresas de engenharia e automação,
outros serão administradores ou tentarão concursos públicos e alguns outros
continuarão na mundo acadêmico perseguindo um mestrado e/ou doutorado.

Inclusive, um conhecido meu certa vez comentou que a carreira acadêmica pode
ser vista como uma jornada em busca da humildade. Ao ingressarmos na graduação
nos consideramos deuses por passar no vestibular e estar nas ciências exatas.
Ao final da graduação, já não pensamos bem assim. Diz ele, então, que no
mestrado percebemos que nem tudo que é publicado é necessariamente verdade
e que passa-se a questionar tudo. Inclusive seu próprio conhecimento. Por fim,
àqueles que buscarão um doutorado restará apenas a certeza de que não se sabe
nada sobre nada nessa vida, dada a vastidão da ciência humana que, apesar de
vasta, não consegue responder questões fundamentais, como: Será que nosso
universo é único, ou será que existem outros por aí? Como é possível fazer os
computadores aprenderem e raciocinar, já que são capazes de vencer os melhores
humanos no xadrez, mas incapazes de realizar o mais simples raciocínio
abstrato? Ou então uma pergunta ainda mais crucial: Quem veio primeiro, o ovo
ou a galinha?

Ao começo de minha fala, eu disse que os colegas se tornaram amigos e irmãos,
mas temo não ter deixado claro como isso se deu. A verdade é que este foi um
curso longo, cheio de provas para nossa vontade. Para sobreviver, tivemos que
nos unir nos estudos e, para terminar os trabalhos, tivemos que contar com
o apoio de pais de nossos colegas que nos adotavam enquanto fazíamos os
projetos. Além das adoções, tínhamos listas de email com respostas de
exercícios, esforços conjuntos para resolução de provas antigas e, é claro,
contribuição de código. Uma extensão natural para a união para a preparação era
a união para comemoração nos finais de período. Normalmente marcada por
churrascos alegres ou partidas de biribol.

Com o passar do tempo, era natural que nos tornássemos amigos de turma e não só
 colegas.

Tudo isso contribuiu para que estivéssemos aqui hoje. Devemos sempre nos
lembrar que o produto final de nosso curso não é nosso diploma, nem tampouco
nosso projeto de graduação e, sim, nós mesmos, que agora saímos da universidade
como engenheiros, aptos a agir na sociedade para sua melhoria e retornar a ela
o investimento feito em nós.

Novamente, o que nos tornou engenheiros não foram apenas nossas notas nem
tampouco nossos trabalhos e provas e, sim, as perguntas nas aulas, as conversas
nos corredores, nos jogos, nos churrascos, nas festas e tudo o mais. Todas
essas coisas juntas foram somadas aos estudos para formar o produto final, que
somos nós mesmos, engenheiros de computação da UFES.

Para terminar, gostaria de citar uma das cartas do apóstolo Paulo, que diz aos
Filipenses: “Não pretendo dizer que alcancei e que cheguei à perfeição. Não.
Mas eu me empenho em conquistá-la. Consciente de não tê-la conquistado, só
procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente,
persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste. Nós, mais aperfeiçoados que somos,
ponhamos nisso o nosso afeto. Contudo, seja qual for o grau a que chegamos,
o que importa é prosseguir decididamente.”

Obrigado.

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