Dia desses, enquanto folheava a edição 2063 da revista IstoÉ, me deparei com um anúncio da EMPROTUR 1 que chamou minha atenção não pelo conteúdo, mas pela forma2.

A questão é: me ocorreu que o texto parecia estranho, com alguns caracteres claramente se sobrepondo e sem ligaduras. Se eles tivessem usado uma fonte qualquer, esses erros provavelmente passariam despercebidos, mas eles usaram a Zapfino, que é uma fonte elegante, rica em variantes e em ligaduras.3

Para investigar minha hipótese de que o trabalho deles poderia ter sido melhor, resolvi ver o que conseguia fazer sem esforço no XeTeX 4 e, apesar de ter gerado o texto anúncio inteiro, o resultado exibido na figura abaixo compara apenas a palavra “férias”.

Zapfino sem e com ligaduras no anúncio

Na figura, o texto à esquerda foi o gerado pela EMPROTUR e o à direita gerado pelo XeTeX. Para mim, o da direita é mais bonito5 que o da esquerda. Como é possível que eu, que não tive qualquer treinamento formal (ou que sequer conheço a teoria), pude gerar em poucos minutos um texto mais bonito que o de (espero) publicitários? O que eu posso supor é que:

  1. Eles não estão nem aí.
  2. Eles não sabem como fazer.
  3. Mandaram um pobre estagiário se virar.

A suposição 3 pode ser reduzida à 1. Logo, os publicitários em questão não estão nem aí, ou não sabem usar a ferramenta que lhes foi entregue. Seja qual for a resposta, parece coerente citar o Roberto Shinyashiki, que uma vez disse que “ao Brasil falta competência e não auto-estima“. Pois, com um esforço mínimo, eles conseguiriam elevar bastante a qualidade do anúncio.

O problema todo é que esse é um tema recorrente para mim. Vira e mexe vejo anúncios com erros ortográficos, jornalistas e publicitários sem a mínima noção de como funciona o projeto e desenvolvimento do leiaute de um site querendo dar pitaco em tudo e, como exemplificado neste ensaio, sem saber como usar bem uma ferramenta aparentemente essencial para o trabalho deles6.

Mais do que simplesmente reclamar, eu gostaria de entender a causa do problema. Estará ela nas escolas de comunicação[^6], na maldição cultural do jeitinho brasileiro ou nos profissionais de comunicação?7 Eu não sei a resposta, mas chutaria que o regular já está de bom tamanho para a maioria.

[^6] Há quem diga que, ao menos nos EUA, a faculdade “is all about drinking” - acho que li no blog do Bruce Eckel.


  1. Obviamente eu não tenho nada contra a EMPROTUR, simplesmente aconteceu de eles fazerem um anúncio ruim. 

  2. Página 75 - O anúncio trata de como Natal é um bom destino para as férias. 

  3. O espaçamento nem depende tanto da fonte, já que (suponho que) qualquer aplicação que se preze possui algum suporte a ajuste de kerning

  4. Para saber o que é possível fazer com esforço, confira este artigo

  5. Eu não acredito tanto na relatividade da beleza 

  6. E eu sequer sou comunicólogo. Eles estudam literatura, arte, tipografia e mais. Para mim, eles não têm desculpa. Eu aprendi HTML em 1998, na oitava série, corrompido pelo meu amigo e ex-sócio Léo Carraretto. Tem uns caras por aí que nem sequer pensam em separar conteúdo de forma. 

  7. Isso é uma generalização, o Brasil está cheio de ótimos profissionais de comunicação, mas infelizmente ainda há mercado para os nem tão bons.